Quando a gente acha que nada vai
nos surpreender na vida.. alguma coisa ainda nos surpreende.
Hoje conversando com uma pessoa
muito especial, percebi que ela não estava bem. Estava conversando normalmente,
rindo, falando besteira, fazendo conjecturas, mas seus olhos brilhavam, e o
brilho não era de felicidade, tinha algo muito triste ali.
Foi aí que eu resolvi perguntar o
porque dela estar triste e ela me respondeu que se sentia a “última bolacha do pacote” e eu perguntei se
isso não era bom, e ela resolveu me explicar o que era se sentir a última
bolacha do pacote.
“ Quando as pessoas abrem um
pacote de bolacha elas estão com muita vontade, mas quando chega na metade
desse pacote a vontade diminui e o último é aquele que fica quebradinho e quase
sempre vai para o lixo. É assim que eu tenho me sentido, quase sempre. Minha
vida é normal, tenho amigos e um ficante, saio as vezes, estudo e trabalho, mas
me sinto não pertencente a lugar algum, não tenho projetos a longo prazo,
porque acho que não sou de lugar nenhum. Não me vejo sendo incluída na vida de
ninguém, sou sozinha e assim permaneço. Dizem que sou a alegria em pessoa, mas é passageira essa
alegria, quando estou no escuro do meu quarto e penso a respeito das pessoas,
não me vejo com elas. Me decepciono tantas vezes quanto me apaixono, já não
espero nada dos objetos das minhas paixões, e quando espero é o mínimo do mínimo,
tenho medo de esperar o normal e ser dilacerada pelo que não vou receber, meço
cada desilusão e cada vez elas ficam mais dolorosas, imaginem se esperasse
mais? Dói muito essa coisa de rejeição. Sou muito carinhosa e deixo a pessoa
ter duas vezes o espaço de que precisam, não quero sufocar ninguém com o meu
amor, a minha paixão e as minhas inseguranças. Aliás as minhas inseguranças
quase nunca são mencionadas, pessoas inseguras por natureza afastam as outras
pessoas, então vivo uma semi-mentira. Eu escondo de mim mesma as minhas neuras
e inseguranças para não afastar as pessoas de mim. Ficam então a alegria, a
singeleza no jeito de gostar.
Esse meu sofrer sem testemunhas, às
vezes transborda e como hoje escorrem pelos olhos, algumas pessoas mais
sensíveis percebem. Eu queria estar feliz com algumas pessoas, mas como as
pessoas já comeram as bolachas e sobrou a última, pode ser que eu fique lá
dentro aguardando ou logo seja descartada. Acabei de ler numa rede social
dessas, que a pessoa com quem eu me relaciono intimamente está com alguns
amigos, isso é o suficiente para que um filme passe pela minha cabeça e eu me
veja sempre a margem de sua vida. Seria uma ótima oportunidade para que eu
fosse inserida ao seu grupo de amigos, mas longe de mim querer que ele me
inclua assim, já que eu sempre vou dizer que a pessoa não é responsável pelo
sentimento que eu nutro por ela, e assim fica mais fácil de conviver comigo mesma e
essa rejeição, e mais uma vez, me vejo como a última bolacha do pacote que desta vez está quebradinha e não é a mais
bonita, e eu me contento em ficar lá, esperando
o descarte ou aquela vontade de última hora em que é devorada sem muito apreço.
Isso é resignação, é ser a última bolacha do pacote”, sem cobranças, sem
esperanças, vivendo um dia após o outro.
Para mim foi uma explicação
emblemática, acredito que por várias vezes passamos por situações parecidas.
Deixo uma questão a ser pensada.. vale a pena deixar se deteriorar aos poucos,
nesse rasgar-se e remendar-se? Vale a pena fazer-se de ponte para a felicidade
dos outros? Essa semi-mentira é uma quase-verdade. Não sei nem o que pensar
sobre o que eu tinha em mente na expressão “a última bolacha do pacote” e sobre
essa versão triste que descobri hoje. Sei que prestar mais atenção ao redor,
deveria ser uma obrigação a quem vive em sociedade. O egoísmo machuca e vai
matando aos poucos. Não quero ser a última bolacha do pacote, não quero um amor
em que espero o mínimo da doação do outro enquanto eu me doo 100%, sou uma
pessoa completa e nem sempre vou me comportar como mera expectadora. Uma hora
vou virar a mesa e quem tiver em volta sairá respingado pelo que cairá. Muitas
vezes as pessoas nos pedem ajuda tão sutilmente, que o grito sai sussurrado...
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